quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Babosa: uma planta bioativa de múltiplas finalidades


A babosa, ou aloés, é uma planta de origem africana, amplamente conhecida na cultura popular mundial e brasileira, especialmente por suas propriedades medicinais no tratamento de queimaduras e doenças da pele. Na indústria de cosméticos, a babosa é identificada, também, por seu nome científico, Aloe vera ou, ainda, Aloe barbadensis e possui grande aplicação na produção de xampus e sabonetes. Contudo, seu uso remonta à história de muitos povos, como egípcios, judeus, árabes e africanos. Na Bíblia, é citado o seu uso na aromatização de ambientes.
Embora a espécie mais conhecida e estudada seja a Aloe vera, existem pelo menos outras 350 espécies, algumas com ocorrência no Brasil. Este fato justifica um cuidado maior na identificação da espécie, uma vez que elas possuem propriedades terapêuticas diferentes, bem como efeitos toxicológicos distintos.
Existem muitos estudos sobre a babosa, comprovando suas propriedades medicinais que vão desde laxante, depurativa, hepática e vermífuga, passando por tônico capilar, cicatrizante da pele e mucosas, até atividades antitumorais, anti-inflamatória e antidiabética. O acemanano, principal polissacarídeo das folhas e substância responsável pelas propriedades terapêuticas da babosa, é reconhecido cientificamente como um extraordinário imunoestimulante. Pesquisadores do mundo todo têm dedicado tempo ao estudo da babosa no tratamento de doenças como câncer, leucemia, psoríase, lúpus entre outras. Com tanto interesse sua dosagem e forma de uso já está bem documentada, assim como sua contra indicação para gestantes e lactantes e uso interno em crianças e portadores de apendicite, varizes e afecções renais.
Contudo, as utilidades da babosa vão além da esfera médica. A mucilagem das folhas, devido à sua viscosidade, já foi testada para diversas finalidades: adesivo natural para próteses dentárias; a essência das folhas é utilizada na indústria de bebidas para fabricação de licores, tônicos digestivos e alguns tipos de cerveja; o óleo extraído das raízes é empregado como aromatizante em bebidas tipo licores e vermutes, além de pudins, gelatinas e outros doces; as fibras das folhas podem ser usadas na fabricação de cordas, esteiras e tecidos de textura mais grosseira.
A babosa, por ser uma planta perene de fácil manutenção e rústica, também apresenta um aspecto ornamental bastante interessante, sendo comumente usada na composição paisagística de jardins particulares e passeios públicos. Na agropecuária, a babosa é citada como inseticida, larvicida, no combate às pulgas e à mamite bovina.
Uma das mais recentes descobertas sobre o potencial da babosa diz respeito à possibilidade de se obter biodiesel a partir de suas sementes. Um estudo realizado na Índia com duração de dois anos verificou ser possível extrair 20% a 22% de óleo das sementes de babosa. Nesse estudo, verificou-se ainda que o óleo de semente de babosa possui propriedades semelhantes a do óleo comestível de girassol.
No Brasil, um estudo realizado em Santa Catarina mostrou a viabilidade econômica do cultivo da babosa em sistema orgânico e sua industrialização para a fabricação de uma bebida em forma de suco. Nesse estudo, o lucro da agroindústria, a partir do segundo ano de cultivo, foi em torno de R$ 30 mil por hectare de babosa, com lucratividade acima de 20%. Evidentemente, os custos envolvidos na implantação de uma agroindústria são relativamente altos e requerem um estudo aprofundado do mercado que se pretende atingir e, em geral, de financiamentos para sua execução. Não obstante, pode vir a se tornar uma opção interessante para comunidades ou grupos de agricultores familiares que já possuam a estrutura física da agroindústria em sistema de associativismo ou cooperativo. 
Apesar de fazer parte do dia a dia de muitas famílias do meio rural e urbano por sua multifuncionalidade, seja como planta medicinal, ornamental ou de uso veterinário, a babosa apresenta baixa tolerância à geada e aos ventos frios, comuns em grande parte da região Sul do Brasil. Para seu aproveitamento em matrizes produtivas de maior escala, como a produção de biocombustível, ou como matéria-prima para indústria alimentícia ou farmacêutica são necessárias pesquisas para desenvolver cultivares e adaptar sistemas de produção que permitam sua adoção como alternativa econômica.

Gustavo Schiedeck - possui graduação em Engenharia Agronômica pela Universidade de Passo Fundo (1992), mestrado em Fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996) e doutorado em Agronomia pela Universidade Federal de Pelotas (2002). Atualmente é pesquisador na Embrapa Clima Temperado e lotado na Estação Experimental Cascata. Tem experiência na área de Agroecologia e agricultura familiar, atuando principalmente nos seguintes temas: horticultura, minhocultura e produção de húmus e plantas bioativas.

Acesso em 22 de Agosto de 2012.

Confira as imagens de uma babosa ornamental:
Fotos: Lucélia Muniz

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