quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Philippe Meirieu: Pedagogia entre o dizer e o fazer

Seu objeto de estudo é a Pedagogia, analisada e interpretada em diferentes perspectivas: quer em sua possibilidade de atuar diferentemente, quer como instrumento de geração de educabilidade, como ação social, como fundamento para a prática docente, como mediadora entre a sociedade e a escola.
Esse autor interessou-se muito cedo pela questão da pedagogia diferenciada como um dispositivo para a democratização da educação; percebeu logo que as pessoas aprendem por meio de ritmos e formas diferenciadas e assim, com a universalização da educação, seria preciso que a Pedagogia desenvolvesse procedimentos para atender aos itinerários específicos de cada aluno na construção da aprendizagem, com a finalidade de garantir a cidadania e os princípios republicanos que caracterizam a escola pública, laica e para todos.
O autor parte de dois pressupostos:
a) Todos precisam e devem aprender, devem ser educados, devem partilhar a cultura do mundo;
b) Não se aprende por decisão dos outros; é preciso que as pessoas queiram aprender, possam aprender e o façam com prazer.
Dando conta dessas duas premissas, entra em ação a ciência de educar, a arte de ensinar, ou seja, a Pedagogia. Esta é encarada como um fazer especial, arte e ciência, que permite mobilizar todos para o desejo e as possibilidades de aprendizagem, considerando as condições reais de cada aluno.
Diz: querer ensinar é crer na educabilidade do outro; no entanto, querer aprender é, também, crer nas possibilidades que o outro pode oferecer!
A escola, em seu ponto de vista, deveria ser a primeira instituição promotora da ascensão pessoal e profissional dos educandos, por meio de um esforço particular no desenvolvimento do ambiente/dimensão cultural e de práticas artísticas e culturais, para além do mero aprender a contar, ler etc.
Para Philippe, o papel do ensino deve ser, substancialmente, pôr em prática uma aprendizagem essencial, a aprendizagem da gestão autônoma dos saberes. O autor defende uma articulação das disciplinas (currículo) com as finalidades da escola (cultura escolar).
Philippe vai adentrar fortemente na contradição entre usufruir e liberar, educar e emancipar.
Essa tensão entre teoria e prática, que constitui a grandeza e a fragilidade da Pedagogia, é, ao mesmo tempo, seu mérito e sua possibilidade de construir grandes transformações no aluno e mesmo na sociedade.
O autor considera que a superação dessa contradição e a matriz dessa ressignificação podem ser encontradas no ético, isto é, no momento do encontro entre pedagogo e o “outro.”
O professor descobre que o aluno diante dele lhe escapa, não aprende, não compreende, não possui o desejo de aprender. O que fazer? O Professor não pode abrir mão de seu projeto de ensinar, mas deve recuar e tentar encontrar esse outro, buscar as possibilidades de entrar em diálogo, em interação com esse aluno. Tal momento seria aquele em que o professor percebe um aluno concreto, um aluno que lhe impõe um recuo, o que, no entanto, não significa renúncia nem impossibilidade pedagógica.
A pedagogia a serviço da escola democrática é aquela que transmite conhecimentos com a garantia de que todos os alunos deles se apropriem e que, no ato da apropriação, haja uma emancipação: os conhecimentos devem ser vistos como libertadores e desenvolver a autonomia dos alunos. A pedagogia diferenciada permite a adaptação às necessidades individuais para tornar o ensino mais eficaz, mas também permite que cada indivíduo a desenvolva como reflexão metacognitiva, tornando-se mais autônomo.
Na instrução não há reflexão, não há compromisso do pedagogo com as aprendizagens previstas: já o educar significa a reflexão contínua e constante sobre o ato de ensinar.
Assim Philippe assume que a característica do ato pedagógico é a contradição: entre dizer e fazer; entre propor e conseguir; entre a vontade pedagógica e a recusa de aprender; entre a manipulação e a emancipação; entre o discurso e a prática; entre a diretividade e a autonomia, ou mesmo entre a prescrição e a autoria; e, como realça muito, entre a instrumentalização da educação e sua prática como interpelação.
Não há fórmulas a aplicar, há apenas sentido coletivo a construir. Está o professor preparado para enfrentar as resistências inexoráveis que o outro (o aluno) opõe? Seus recursos didáticos serão suficientes ante a diversidade que hoje uma sala escolar apresenta? Como lidar com alunos sem desejo de aprender? Como trabalhar com crianças e jovens que não construíram nos lares os sentidos da importância da escola?
O vaivém entre prática e teoria, a busca incessante de meios para fundamentar o processo de ensino, o empenho por decisões cada vez mais adequadas às situações concretas parecem ser o caminho para lidar com a insustentável leveza da Pedagogia.
Tirar do docente a possibilidade de agir no momento pedagógico com ousadia e competência é tirar-lhe as possibilidades pedagógicas.
Não basta ao professor apenas aproveitar os interesses e conhecimentos trazidos pelo aluno: é preciso criar nele novos interesses e novos conhecimentos. Se o desejo não está lá, é preciso criá-lo, produzi-lo, reacendê-lo.
Diz Meirieu: não basta dar água a quem tem sede! É preciso ensinar a ter sede e buscar água. Essa é tarefa fundamental da ação pedagógica. Trazer o outro para o processo educativo; saber vencer a natural resistência do outro.
Não se pode abandonar a perspectiva da universalização: a cultura precisa ser vivida e apreendida pelos alunos. A Pedagogia deve buscar meios e formas de atuar nessa direção. É direito dos alunos ter acesso aos significados culturais construídos.
Philippe Meirieu
É considerando um dos maiores pedagogos franceses e exerce grande influência em vários países da Europa.

REFERÊNCIA
FRANCO, Maria Amélia do Rosário Santoro. Pedagogia e prática docente. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

*resumo do texto

Um comentário:

  1. Muito boa essa matéria, Lucélia. Eu, que sou pedagogo, me interessei muito por tais ideias. Só se aprende quando se tem o desejo. Excelente ponto de vista.

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